Eu nunca fui especialmente brilhante, e talvez essa tenha
sido uma das maiores sortes da minha vida. Escrever isso me faz parecer
ressentido com os alunos que ganhavam medalhas no fim do ano, mas não é isso. A
verdade é que eu nunca fui esse tipo de pessoa. Nunca fui o melhor da sala, nem
o mais disciplinado, o mais focado ou qualquer outra palavra que normalmente
antecede um burnout aos 40.
Na escola, a nota para passar de ano era sete e eu era
consistentemente um aluno nota oito. Oito era meu habitat natural. Nunca
precisei de recuperação, mas também jamais carreguei a pressão de ter que continuar
sendo brilhante. Enquanto os alunos nota dez decoravam todas as fórmulas e
provavelmente escreviam um futuro promissor em alguma profissão respeitável, eu
conversava com os professores, olhava pela janela, inventava histórias, me
apaixonava por pessoas improváveis e, de alguma forma, aprendia também. Talvez
aprender, no fim, tenha muito menos a ver com perfeição do que nos fizeram
acreditar.
Sempre achei a perfeição um conceito meio cafona. A palavra impecável,
causa quase um desconforto físico. Me pego pensando se essa palavra vem da ideia
de “sem pecado”, como se errar fosse uma falha moral e não simplesmente a
experiência mais universal da vida adulta, junto com boletos, ansiedade e
mensagens enviadas para a pessoa errada em horários pouco recomendáveis.
Talvez ser mediano tenha me dado justamente aquilo que os
brilhantes não tinham, que é o tempo. Tempo para a dúvida, para a conversa,
para observar o mundo e as pessoas, que sempre me interessaram muito mais do
que qualquer vista bonita. Tempo para mudar de ideia, que me parece um dos
maiores luxos da inteligência! Sempre gostei da dúvida. Pessoas que tem muitas
certezas, normalmente falam como se estivessem num TED Talk, mesmo quando só
perguntamos se querem mais café.
Na faculdade também foi parecido, embora ter feito
comunicação tenha aliviado um tanto. Eu nunca quis ter o melhor projeto da sala,
mas sim, ter um projeto interessante, o que me parece uma ambição muito mais
honesta. E isso me permitia viver mais, ouvir gente improvável, consumir
referências aleatórias, perder tempo de forma produtiva, que talvez seja uma forma
mais real de criar qualquer coisa minimamente boa. Ironia ou justiça dos medianos,
às vezes eu acabava fazendo coisas mais criativas justamente porque não estava
ocupado demais tentando ser perfeito.
Hoje, adulto, me percebo menos gentil comigo do que já fui.
Outro dia, numa viagem de trabalho, me peguei respondendo mensagens às onze da
noite porque me sentia culpado por estar num hotel confortável. Como se o
trabalho estivesse pagando pelo meu tempo e, portanto, eu devesse existir
produtivamente o tempo inteiro. Uma lógica completamente doente, especialmente
para quem trabalha criando coisas, porque criatividade não nasce da pressão,
ela nasce do respiro, do banho demorado, da conversa inútil que depois não era
inútil, daquele tempo aparentemente desperdiçado que acaba sendo exatamente
onde mora a ideia.
Hoje, numa reunião, fiquei pensando em forma e função. A
forma importa, claro. A forma veste a ideia, dá perfume, bom corte de cabelo,
faz com que ela entre bonita no ambiente. Mas a função sustenta a casa. Porque
de que adianta a apresentação impecável, o texto perfeito, a campanha mais
bonita do mundo, se aquilo não cumpre seu objetivo? Talvez a função seja
profundamente mediana. E digo isso como elogio. Porque a função não quer
aplauso, ela quer funcionar.
No fim, talvez eu nunca tenha sido nota oito por falta de
capacidade. Talvez tenha sido só instinto de sobrevivência. E sinceramente?
Funcionou.