21 maio 2026

Nota oito.

Eu nunca fui especialmente brilhante, e talvez essa tenha sido uma das maiores sortes da minha vida. Escrever isso me faz parecer ressentido com os alunos que ganhavam medalhas no fim do ano, mas não é isso. A verdade é que eu nunca fui esse tipo de pessoa. Nunca fui o melhor da sala, nem o mais disciplinado, o mais focado ou qualquer outra palavra que normalmente antecede um burnout aos 40.

Na escola, a nota para passar de ano era sete e eu era consistentemente um aluno nota oito. Oito era meu habitat natural. Nunca precisei de recuperação, mas também jamais carreguei a pressão de ter que continuar sendo brilhante. Enquanto os alunos nota dez decoravam todas as fórmulas e provavelmente escreviam um futuro promissor em alguma profissão respeitável, eu conversava com os professores, olhava pela janela, inventava histórias, me apaixonava por pessoas improváveis e, de alguma forma, aprendia também. Talvez aprender, no fim, tenha muito menos a ver com perfeição do que nos fizeram acreditar.

Sempre achei a perfeição um conceito meio cafona. A palavra impecável, causa quase um desconforto físico. Me pego pensando se essa palavra vem da ideia de “sem pecado”, como se errar fosse uma falha moral e não simplesmente a experiência mais universal da vida adulta, junto com boletos, ansiedade e mensagens enviadas para a pessoa errada em horários pouco recomendáveis.

Talvez ser mediano tenha me dado justamente aquilo que os brilhantes não tinham, que é o tempo. Tempo para a dúvida, para a conversa, para observar o mundo e as pessoas, que sempre me interessaram muito mais do que qualquer vista bonita. Tempo para mudar de ideia, que me parece um dos maiores luxos da inteligência! Sempre gostei da dúvida. Pessoas que tem muitas certezas, normalmente falam como se estivessem num TED Talk, mesmo quando só perguntamos se querem mais café.

Na faculdade também foi parecido, embora ter feito comunicação tenha aliviado um tanto. Eu nunca quis ter o melhor projeto da sala, mas sim, ter um projeto interessante, o que me parece uma ambição muito mais honesta. E isso me permitia viver mais, ouvir gente improvável, consumir referências aleatórias, perder tempo de forma produtiva, que talvez seja uma forma mais real de criar qualquer coisa minimamente boa. Ironia ou justiça dos medianos, às vezes eu acabava fazendo coisas mais criativas justamente porque não estava ocupado demais tentando ser perfeito.

Hoje, adulto, me percebo menos gentil comigo do que já fui. Outro dia, numa viagem de trabalho, me peguei respondendo mensagens às onze da noite porque me sentia culpado por estar num hotel confortável. Como se o trabalho estivesse pagando pelo meu tempo e, portanto, eu devesse existir produtivamente o tempo inteiro. Uma lógica completamente doente, especialmente para quem trabalha criando coisas, porque criatividade não nasce da pressão, ela nasce do respiro, do banho demorado, da conversa inútil que depois não era inútil, daquele tempo aparentemente desperdiçado que acaba sendo exatamente onde mora a ideia.

Hoje, numa reunião, fiquei pensando em forma e função. A forma importa, claro. A forma veste a ideia, dá perfume, bom corte de cabelo, faz com que ela entre bonita no ambiente. Mas a função sustenta a casa. Porque de que adianta a apresentação impecável, o texto perfeito, a campanha mais bonita do mundo, se aquilo não cumpre seu objetivo? Talvez a função seja profundamente mediana. E digo isso como elogio. Porque a função não quer aplauso, ela quer funcionar.

No fim, talvez eu nunca tenha sido nota oito por falta de capacidade. Talvez tenha sido só instinto de sobrevivência. E sinceramente? Funcionou.


24 janeiro 2025

Jorge.

João, um caminhoneiro de 45 anos, seguia sua rotina como sempre. Com o rádio velho tocando modas sertanejas e a cabine do caminhão servindo de casa, ele atravessava o Brasil para garantir a pensão dos filhos. Morava em uma quitinete nos fundos de um posto de gasolina em Goiânia, mas passava mais tempo na estrada do que em qualquer outro lugar. A vida era solitária, mas prática. Ele tinha convicção de quem era e do que precisava fazer.

Naquela semana, ele recebeu um frete longo: levar uma carga de tijolos de Goiânia a Aracaju. Quarenta horas de estrada. Ao passar por Feira de Santana, o GPS perdeu o sinal. Sem saber para onde ir, ele encostou o caminhão e avistou um jovem magro e de olhar inquieto, sentado na beira da estrada. Jorge, 20 anos, fazia "chapa" desde os 16. Expulso de casa ao revelar que era gay, sobrevivia carregando e descarregando caminhões, sempre vagando entre postos e estradas.

João pediu informações sobre o caminho. Jorge, sempre atento a oportunidades, se ofereceu para ajudar. “Se me der um prato de comida, te mostro o melhor trajeto até Aracaju.” João, que tinha um coração mais generoso do que gostava de admitir, aceitou.

No posto de gasolina, Jorge devorou o jantar que João pagou. Comer era raro para ele, e aquele prato quente parecia um banquete. Entre uma garfada e outra, os dois conversaram. João falou sobre os filhos, sobre o peso de estar longe, enquanto Jorge contou sobre como a estrada era a única casa que conhecia. Quando as palavras já não bastavam, as cervejas quentes – o máximo que o posto podia oferecer – desataram ainda mais as línguas.

Bêbados, riram da vida e do acaso que os unira. Quando a noite caiu, voltaram ao caminhão. Dormir na boleia era um hábito para João, mas, com Jorge ali, o espaço apertado parecia ainda menor. Deitados lado a lado, o calor dos corpos e o efeito da bebida os conectaram de um jeito inesperado. O toque, tímido no início, se transformou em algo intenso. João, que sempre se viu como heterossexual, não entendeu, mas não resistiu.

Na manhã seguinte, Jorge estava constrangido. Tentou se afastar. “Melhor você arranjar outra ajuda, João.” João tentou argumentar, mas Jorge foi firme. Saiu do caminhão e desapareceu entre as ruas da cidade.

João seguiu viagem, mas a lembrança da noite anterior o atormentava. A estrada parecia sem fim, e o vazio ao lado o incomodava mais do que admitia. Após uma hora, não aguentou. Deu meia-volta e voltou ao posto, mas Jorge não estava mais lá. A atendente contou que ele fora levado por dois homens por causa de uma dívida. “Acho que vão matá-lo”, disse, indiferente.

João entrou em pânico. Sem pensar, saiu em busca de Jorge. Atravessou ruas e estradas até avistar um pasto afastado. Lá, encontrou os dois homens segurando Jorge, prontos para machucá-lo ainda mais. A raiva tomou conta de João. Ele pegou um facão no caminhão e avançou. Depois de uma briga intensa, conseguiu afastar os agressores e salvou Jorge.

Machucado, Jorge chorava, mas o alívio de ver João era evidente. João cuidou dos ferimentos dele na cabine do caminhão. Enquanto limpava o sangue e colocava gelo nas contusões, os dois discutiram. Jorge, exausto, desabafou: “Minha vida não é para ser vivida, João. É só para ser sobrevivida. Nunca tive nada, nunca fui amado. Eu só existo. E mesmo assim... ninguém nunca me levou embora.”

As palavras de Jorge cortaram João como um facão. Ele chorou, incapaz de segurar a emoção. Em um gesto instintivo, o beijou. Depois, sem dizer nada, abriu a porta do passageiro. Jorge hesitou, mas, entre lágrimas, entrou no caminhão. A viagem seguiu em silêncio, até que Jorge pediu que João parasse. Quando o caminhão parou, ele abraçou João com força. Os dois choraram juntos.

Ao chegarem em Aracaju, João entregou a carga, mas não tinha pressa de voltar a Goiânia. À noite, os dois foram a um bar simples, com chão de terra e luz baixa. Depois de algumas doses de cachaça, João confessou: “Amo meus filhos. Quero que eles sejam doutores. Mas hoje... meu único desejo é ficar aqui.”

Jorge, com um sorriso tímido, respondeu: “Eu também ficaria aqui com você.” Eles dançaram um forró apertado, olhando-se nos olhos. Naquele instante, a estrada, com todos os seus desafios, parecia menos solitária. Ambos sabiam que o futuro era incerto, mas, pela primeira vez, sentiram que não estavam sozinhos para enfrentá-lo.


30 dezembro 2021

Feliz, lúcido e bom.

 

Escrevo porque estou triste, porque preciso parar de fumar, porque preciso parar de beber, porque o ano está acabando e eu ainda não consegui me encontrar neste turbilhão de sentimentos fúteis que eu ainda sinto incessantemente.

A sensação de pertencimento é uma dádiva, algo que família e amigos conseguem te trazer de forma gratuita e acessível, mas seu revés é simplesmente a jornada mais solitária que se pode viver o herói (sem o heroísmo, é claro, apenas nesta ideia de narrativa). Ouvi algo sobre os apátridas este ano e aquilo me marcou feito ferro quente, me senti horrível por imaginar pessoas que não tem pátria, que não tem cama, nem paredes, nem nação, mas jamais imaginei que me sentiria horrível pensando em mim.

Eu sempre gostei de ficar sozinho, de ficar apenas com meus sentimentos. Beber sozinho, ouvir sozinho, cantar sozinho, dançar sozinho. Mas essa sensação vem diminuindo a cada momento, talvez porque eu nunca tenha estado de fato apenas em minha companhia, eu gostava da lacuna entre meu convívio social e essa “solidão”. Hoje me sinto só, da maneira “apátrida” de ser, com a família longe, sem ninguém do lado da cama, meus amigos seguindo suas vidas, numa cidade que te engole a cada segundo e te faz ter cada vez menos coragem de abrir a porta.

Me tornei um covarde de mim mesmo, daqueles que estão cercados de pessoas, que fazem a piada que as pessoas querem ouvir, que ganham dinheiro, que se abrem para todo mundo, que contam vantagem do apartamento no Centro, que reclamam de tudo da vida (corrida, cansativa, enfadonha), mas que não entregam nenhum pingo de coragem quando estão sós.

Eu estou só. E isso só me leva a soluções horrorosas, como mudar de casa, adotar um cachorro, namorar o primeiro que aparecer, sair com o ex-qualquer coisa e fingir ser um casal, voltar para a cidade natal, tentar buscar pelo resto de esperança e colágeno que um dia houve, sair sem rumo diariamente e, o pior, entrar numa academia.

De todas essas a única que consigo realizar com firmeza é dirigir pela cidade, sem rumo, passando por todos os lugares que te fizeram feliz em algum momento e assistir por trinta segundos, enquanto o farol não abre, desconhecidos sendo felizes nestes mesmos lugares.

Nunca gostei de disputas, pois sou um perdedor horrível, fica bravo, falo palavrão, choro. Agora perder pessoas com que você conheceu profundamente e que hoje são “just somebody that I used to know” é o pior tipo de perda possível. É sentir que você também é apenas alguém que essas pessoas conheceram, alguém que não tem mais relevância.

Neste próximo ano, não vou fazer promessas, não vou usar branco no réveillon, nem vou fazer desejos. Serei apenas o cara que ainda fuma, que ainda bebe muito, que ainda sente saudade e ainda que está triste.

Mas principalmente, serei o cara que no fundo gosta do que vê diante do espelho.

10 novembro 2021

Está tudo bem.

 

Essa afirmação vem me consumindo há um tempo, principalmente para mim, que teve toda uma vida pautada nos problemas que enfrentei, as angústias que eu senti e a forma com que eu saí de situações que na maioria das vezes foram péssimas. Não consigo me lembrar como era minha vida no inverno de 2012, mas me lembro especificamente que naquele momento da vida eu chorei em um bar sujo da Rua Augusta, lembro com riqueza de detalhes de tudo o que eu senti, de toda a dor acumulada e de todas as coisas maravilhosas que nasceram daquela dor.

Hoje, porém, me olho no espelho do meu banheiro depois de duas taças de vinho e a única frase que passam pela minha mente é: “Está tudo bem”, o que para a maioria das pessoas que eu conheço seria uma forma de alívio, uma conquista depois de anos de luta, mas para mim que pensa demais, é uma ideia que aprisiona.

O sofrimento absoluto me levou para lugar que eu nunca iria se estivesse “tudo bem”, todas as paixões falidas, os amigos que se afastaram, as frustrações profissionais, a rejeição, a solidão, o desconhecido, me fizeram chegar mais longe, me tornaram mais criativo e cada vez mais dono de mim, cada vez mais próximo da pessoa que eu esperei ser, mais próximo do meu próprio paraíso artificial.

Existem diversas vantagens neste meu novo eu e gosto delas, mas é difícil se tornar outra pessoa estando tão acostumado com a antiga, é difícil pensar nos problemas e encontrar soluções para eles de forma prática, é difícil ser o total oposto de um modus operandi que te deixava em pé.

Dia desses eu sofri, o fluxo de pensamentos ficou abalado, ouvi músicas triste enquanto tomava um banho quente, chorei na cama abraçando o travesseiro, tive uma pequena crise de ansiedade e dormi. Acordei bem, consegui analisar a situação e ela passou, a angústia foi embora e segui com a vida, trabalhei, estudei, comprei novos panos de prato, fiz a barba e quando me deitei novamente na cama, não senti nada – talvez uma pequena vontade de rir do sofrimento das últimas 24 horas.

Não que esta seja uma reclamação, tudo foi construído de forma homeopática, uma mistura de várias horas de análise lacaniana, alguns boletos para pagar, treinos de respiração e um bocado de problemas para resolver. Acho que essa é a transição natural, é o momento em que se entende que a vida é finita e que se tem muito para realizar, para construir, para imaginar.

Eu não sou mais o mesmo e isso é bom, hoje já não me exponho em praça pública como antigamente, já não choro em banheiros e, principalmente, não sofro com dores que racionalmente eu tenho o poder de evitar.

Hoje está tudo bem! Fazer análise, ter problemas, chorar só quando é muito necessário, as taças de vinho, ver as desigualdades do mundo, o preço da gasolina, o governo, os problemas de família, a conta de luz, o medo de envelhecer, a janela com a luz acessa, a correria, o despertador que insiste em interromper o sonho, as reuniões no zoom, os remédios naturais e os tão-não-naturais-assim, tudo isso me tornou o que sou hoje.

Mas se em algum dia você precisar chorar num banheiro sujo, me liga, deste sentimento eu entendo bem.

12 setembro 2021

"Pai de Família"

 

Hoje tenho 27 anos, tenho uma profissão, fiz uma graduação, adoro estudar, ver série, tenho um emprego que gosto, me separei. Depois de quatro anos, um relacionamento que terminou assim como começou, de supetão, intenso e sem pedir licença, do jeito que todo mundo queria que os relacionamentos terminassem, de forma leve, com amizade e amor, sou muito grato por isso.

Mas depois de quase três décadas neste planeta, tenho algumas certezas, amo estar casado, amo aprender, sou carente e quero ter um filho. Escrever assim os meus desejos os tornam mais palpáveis (e olha que faz tempo que não escrevo), mas uma coisa está me incomodando depois da separação. No início do fim, achei que meu problema seria o flerte, o contato, conhecer uma nova pessoa e deixar que ela te conheça, mas de longe é isso a dificuldade deste momento, o que quero é um marido “pai de família”.

Eu também me pergunto o que é querer um “pai de família” para ser o homem com quem você quer dividir sua prole, mas minhas dúvidas e frustações me fazem tornar essa pessoa cada vez mais palpável.

O “pai de família” não te cansa (e quando cansa ele desaparece, vai procurar um outro jeito de resolver qualquer problema do qual você não seja apto), ele não faz muitas perguntas e te elogia com certa frequência, ele é um bom pai, um bom filho e ouve música ruim, algo que trás todo um charme. Ele é tranquilo, de uma forma que só um ser pisciano consegue, ele faz a parte dele no relacionamento e gosta de te ouvir, sem opinar muito.

Ele tem uma profissão comum, algo entre gerente de-qualquer-coisa e contador, não é muito criativo e viaja para o mesmo lugar duas vezes por ano, ele assiste jogo de futebol no domingo e lava a louça depois do jantar, faz lição de casa com o filho e toma dez latas de cerveja no fim de semana (quatro na sexta, três no sábado e três no domingo).

Com ele não tem montanha-russa, é só pedalinho no lago tomando sorvete de flocos, ele é meio bobo quando precisa, canta alto no carro e faz macarrão à bolonhesa, mas também é sério, mas sem discussão, ele cuida do imposto de renda, do IPVA, do IPTU, do convênio médico e dos boletos com prazer.

Esse “pai de família” faz sexo duas vezes por semana, em dias pré-estabelecidos, sem grandes peripécias ou fantasias, sexo normal e ponto. Ele é romântico de vez em quando, te leva para jantar num restaurante caro uma vez por mês e no motel uma vez por ano. Ele também não é velho a ponto de não conseguir correr com o filho, mas também não é jovem a ponto de querer ir a um show de rock.

Esse cara é alguém com quem eu me casaria sem pestanejar, sem festa cara, nem viajem internacional, com quem eu moraria num apartamento de 70m² em Perdizes, com o filho, um cachorro e um peixe, numa vida entre o pacato extremo e o minimamente agitado, uma vida que eu não posso afirmar que amaria, mas todas as minhas questões, minhas angustias, meus medos, minhas loucuras acabariam, porque eu também seria um pai de família.